O Jorge e a Maria Carlota conheceram-se da maneira do costume. Rapaz vê rapariga. Rapariga vê rapaz. Rapariga desce do autocarro em que segue. (Não o faz, importa salientar, porque o seu olhar se cruzou com o do rapaz e sentiu o destino a espetar-se-lhe nas ventas qual camião TIR. Acontece só que por uma fatal coincidência, aquela é a sua paragem.)
Rapariga tropeça nos próprios pés, estatelando-se ao comprido e quebrando a queixada no passeio.
Rapaz, sendo um ser humano mais ou menos bem formado, arrota o obrigatório e histérico “Jasus, ‘tás bem? Estás a sangrar bués!” atira-lhe com um pacote de lenços e liga ao INEM.
Seguem-se, mais ou menos por ordem: uma ida às urgências para endireitar a mandíbula. Uma troca supersónica de contactos antes de se fecharem as portas da ambulância. Um encontro, que nenhum dos dois admite ser encontro, no restaurante de fast food marca branca local, em que consomem um cheeseburger sem mostarda (ele) e uma cola com uma palhinha das largas (ela).
Ele partilha aspectos da sua vida, sonhos e ambições. Ela escuta-o sem se manifestar. A sua vida é um tema que Maria Carlota detesta trazer à baila, os seus sonhos e ambições são coisas quiméricas e o colar cervical de polistireno à volta do seu pescoço só lhe permite expelir diferentes combinações de “Ulgh, mnhn, nhaahh!”
Combinam voltar a encontrar-se. Desta vez para irem ao cinema, e desta vez tratando-se assumidamente de um encontro-encontro. Ele escolhe o filme, porque saiu recentemente um que anda ansioso por ver. Ela não se opõe; não lhe ocorre nada preferível e o tal filme é francês, o que para a Maria Carlota equivale a chiquérrimo.
É assim que a ela acaba numa cadeira desconfortável, concentrada em esvaziar um balde de pipocas à velocidade de um aspirador em modo turbo enquanto tenta simular interesse na tribo de pinguins imperadores que se passeia pelo ecrã gigante.
A Maria Carlota detesta documentários. E animais. E paisagens geladas. E cores que lhe refresquem memórias de uma infância traumatizante passada entre monjas clarissas com paciência abaixo de zero.
A Maria Carlota passa hora e meia a lamentar que não tenham antes ido ver o western que está a passar na sala ao lado. Não que goste mais de westerns que de documentários, mas este parece-lhe que mete algum romance e tem clara a vantagem de os actores principais serem podres de bons.
Os pinguins não são podres de bons. O mesmo se pode dizer do Jorge. O Jorge é, contudo, o primeiro ser humano que lhe presta o mínimo de atenção, razão pela qual a Maria Carlota mente com todos os dentes que tem quando este lhe pergunta, já estando os créditos a rolar, se gostou. (“Adorei, foi o máximo!)
Duas semanas depois, namoram. Dois meses depois está ela a cair-lhe em casa com a cara feita num bolo, cortesia de uma monja à qual não caiu bem que uma inocente jovem de dezasseis primaveras se estivesse a fazer, toda descarada, a uma múmia caquéctica de dezanove invernos. Ele, cavalheiro, deixa-a ficar por dias que se tornam semanas, que se tornam meses, que se tornam “Vi um anúncio a um T2 barato junto à Sé, que achas de darmos uma vista de olhos? Já está mais que na hora de sairmos deste cubículo.”
O contrato é fechado, o T2 alugado. Algures pelo meio, adquirem um Fiat 500 em razoável estado de conservação que a Maria Carlota imediatamente reduz a sucata, mantido semi-funcional por obra e graça do espírito santo. O pacote Jorge-e-Maria-Carlota sedimenta e solidifica.
Os anos passam num repente, esvaindo-se o tempo em serões abancados no sofá a assistir ao Discovery Channel. A Maria Carlota aprende a andar pela casa com os olhos pregados no chão, de modo a evitar tropeçar nas pilhas de Super Interessante e National Geographic que o Jorge acumula como quem coleciona cromos de jogadores de futebol. O Jorge tira um curso intensivo em como evitar que a namorada acabe espalmada por camiões, material de construção em queda livre e, numa ocasião memorável, um clavicórdio vintage.
Os dois correm Portugal e, quando o dinheiro estica, Espanha, com uma câmara ao ombro. Jantam em restaurantes exóticos, nos quais a carne vem tenra mas com uma perturbadora abundância de patas. Fotografam lobos, sapos e aranhas, mais répteis de todo o tipo. (Os dois últimos monopolizados pelo Jorge, visto que a Maria Carlota é aracnofóbica e se pela de medo de cobras.) São felizes à mesma maneira que a maior parte das pessoas é, que é como quem diz: mais ou menos.
Ele bebe leite diretamente do pacote e sofre de incapacidade crónica de cumprir horários. Ela é pegajosa e viciada em demonstrações públicas de afecto. Ele considera que ela é uma moça super porreira e vive felicíssimo por ter encontrado alguém que o entende. Ela considera que ele é a melhor coisa que lhe aconteceu e vive convicta de que o facto de os seus processos de pensamento lhe parecerem alienígenas 99% do tempo não releva para coisíssima nenhuma.
Ela ama-o. Exclusivamente, porque não tem a quem mais amar. Jovens com suporte social e familiar adequado não são criadas por matronas de dois metros de altura chamadas Irmã Hermínia. Ele não a ama em singular, mas mas tem a decência de dispensar o amor sobrante a recipientes aceitáveis: mãe, pai, avó materna com demência grave, irmãs mais novas, dois marmanjos seus amigos de infância que a Maria Carlota nunca irá admitir que não pode ver pela frente. Ninguém, em suma, que constitua ameaça ao seu estatuto.
Os dois correm Portugal e, quando o dinheiro estica, Espanha, com uma câmara ao ombro. Jantam em restaurantes exóticos, nos quais a carne vem tenra mas com uma perturbadora abundância de patas. Fotografam lobos, sapos e aranhas, mais répteis de todo o tipo. (Os dois últimos monopolizados pelo Jorge, visto que a Maria Carlota é aracnofóbica e se pela de medo de cobras.) São felizes à mesma maneira que a maior parte das pessoas é, que é como quem diz: mais ou menos.
Ele bebe leite diretamente do pacote e sofre de incapacidade crónica de cumprir horários. Ela é pegajosa e viciada em demonstrações públicas de afecto. Ele considera que ela é uma moça super porreira e vive felicíssimo por ter encontrado alguém que o entende. Ela considera que ele é a melhor coisa que lhe aconteceu e vive convicta de que o facto de os seus processos de pensamento lhe parecerem alienígenas 99% do tempo não releva para coisíssima nenhuma.
Ela ama-o. Exclusivamente, porque não tem a quem mais amar. Jovens com suporte social e familiar adequado não são criadas por matronas de dois metros de altura chamadas Irmã Hermínia. Ele não a ama em singular, mas mas tem a decência de dispensar o amor sobrante a recipientes aceitáveis: mãe, pai, avó materna com demência grave, irmãs mais novas, dois marmanjos seus amigos de infância que a Maria Carlota nunca irá admitir que não pode ver pela frente. Ninguém, em suma, que constitua ameaça ao seu estatuto.
Até ao dia em que lhes aparece à porta uma praga chamada Violeta.
- Menina. Menina! Ó meniiina!
A Maria Carlota vai acordando aos poucos, sacolejada de volta para a cruel realidade por um cotovelo espetado nas suas costelas. Boceja. Esfrega as remelas dos olhos, passa uma mão pelo queixo e canto da boca para se certificar de que não esteve a babar-se à vista de todos numa carruagem lotada. Cumprido o ritual, murmura sílabas ininteligíveis enquanto aguarda que o cérebro volte a estar online. Só então se vira para lançar um olhar torto ao dono do cotovelo.
O homem, grisalho, mirrado e afogado até aos óculos num cachecol laranja, indica a folha de papel que a Maria Carlota chapou no colo no início da viagem. Ela segue o movimento e pestaneja para focar as palavras lá rabiscadas: “Acordem-me em Coimbra! p.s. não me roubem a mala sff!” Quase por reflexo, espreita pela janela. O comboio encontra-se parado numa estação deserta. De alguma forma, consegue empurrar para fora uma frase com o mínimo de coerência.
- Coimbra é isto?
O homem revira os olhos, o que ela traduz para “Não, resolvi dar-te nódoas negras porque não tenho mais nada que fazer na vida”. Anuindo e tentando formar um sorriso agradecido, a Maria Carlota arrasta-se para fora do banco e puxa a bagagem do compartimento sobre a sua cabeça, com um langor mais próprio de ganzados e narcolépticos.
O relógio pendurado na frente da estação informa-a de que são 17:30. Significando que se passaram 27 horas e doze minutos desde que ocorreu o apocalipse, e não só o mundo não aparenta ter registado o facto como insiste em continuar a girar, alheio ou insensível ao vazio que lhe consome a alma como ácido, ou cal viva, ou aquelas experiências do ensino básico em que se descasca um ovo com Coca-Cola.
A porta assoma diante dela, recortando um pedaço da cidade que se vai estendendo à medida que avança, arrastando a mala e caindo contra ou dando encontrões naqueles que, como ela, pretendem apear ali. Já com um pé no degrau para descer, queda-se imóvel e fixa o céu encoberto, as filas de casas e estruturas de betão, o emaranhado de estradas.
É isto, então, a existência pós-Jorge: só numa cidade estranha, dependente da misericórdia de uma tia que viu um total de três vezes na vida, as suas posses terrenas ensardinhadas num malão que dir-se-ia conter tijolos de tanto que tem de puxar por ele para o mover.
Uma lágrima escapa-se-lhe do canto do olho, solitária, cristalina, pH 6,7.
Dois segundos mais tarde, encontra-se em queda livre. A sensação que a arrebata nem é uma de dejá vu, mas de já familiar resignação. Aterra com as mãos no chão, descobre que o cimento do cais de embarque é mais áspero que o previsto quando se levanta e nota as palmas esfoladas e raiadas de sangue. Ah, bom. Nada a fazer. É agarrar na mala e andar, agarrar na mala e andar, e com alguma sorte a tia Cecília já estará estacionada algures à sua espera, salvando-a de ficar a chorar baba e ranho em frente a taxistas, turistas ingleses e a rapariga da banca dos jornais, que assistem ao espectáculo com ar pasmado mas têm o bom senso ou a falta de humanidade de não a abordar.
A tia Cecília não chegou ainda.
Maria Carlota morde o lábio, ruminando enquanto esfrega as mãos – temperaturas acima dos 27 graus durante toda a tarde e noite, o tanas. O seu telemóvel está perdido no fundo do malão, que não se atreve a abrir por o ter empacotado tão compacto que é provável que ao fazê-lo catapulte o seu conteúdo – roupa, artigos de toilette, estojo de primeiros socorros — para cima dos taxistas, que deram em discutir a derrota do Académica em altos berros.
Pronto. Tudo bem.
Quinze minutos a rapar frio mais tarde, emenda-se e decide que não, não está tudo bem, e que se lixe alguém levar com um sutiã desgovernado na tromba, ela precisa do telemóvel já. Tomada a decisão, olha o cadeado – dourado, em formato de coração e cravejado de brilhantes de plástico, prenda do Jorge para marcar três anos de namoro – e faz os dedos mover as rodas num tortuoso 2005: o primeiro ano da sua vida com a dois. Franze a testa, tão intensamente que lhe nasce uma monocelha, quando o clic esperado falha em fazer-se ouvir.
Lindo. Só lhe faltava mais esta, o cadeado meter greve. Rodar os números para a frente e para trás, torções e violentos puxões não resolvem a situação. Em cima de tudo o resto, ainda consegue partir uma unha. Além do mais, os taxistas já lhe começam a fazer olhinhos agora que o seu ar de “Estou à espera que alguém me venha recolher!” se transformou numa expressão que quase grita “Meu Deus, ALGUÉM ME SALVE.”
ααα
A Maria Carlota vai acordando aos poucos, sacolejada de volta para a cruel realidade por um cotovelo espetado nas suas costelas. Boceja. Esfrega as remelas dos olhos, passa uma mão pelo queixo e canto da boca para se certificar de que não esteve a babar-se à vista de todos numa carruagem lotada. Cumprido o ritual, murmura sílabas ininteligíveis enquanto aguarda que o cérebro volte a estar online. Só então se vira para lançar um olhar torto ao dono do cotovelo.
O homem, grisalho, mirrado e afogado até aos óculos num cachecol laranja, indica a folha de papel que a Maria Carlota chapou no colo no início da viagem. Ela segue o movimento e pestaneja para focar as palavras lá rabiscadas: “Acordem-me em Coimbra! p.s. não me roubem a mala sff!” Quase por reflexo, espreita pela janela. O comboio encontra-se parado numa estação deserta. De alguma forma, consegue empurrar para fora uma frase com o mínimo de coerência.
- Coimbra é isto?
O homem revira os olhos, o que ela traduz para “Não, resolvi dar-te nódoas negras porque não tenho mais nada que fazer na vida”. Anuindo e tentando formar um sorriso agradecido, a Maria Carlota arrasta-se para fora do banco e puxa a bagagem do compartimento sobre a sua cabeça, com um langor mais próprio de ganzados e narcolépticos.
O relógio pendurado na frente da estação informa-a de que são 17:30. Significando que se passaram 27 horas e doze minutos desde que ocorreu o apocalipse, e não só o mundo não aparenta ter registado o facto como insiste em continuar a girar, alheio ou insensível ao vazio que lhe consome a alma como ácido, ou cal viva, ou aquelas experiências do ensino básico em que se descasca um ovo com Coca-Cola.
A porta assoma diante dela, recortando um pedaço da cidade que se vai estendendo à medida que avança, arrastando a mala e caindo contra ou dando encontrões naqueles que, como ela, pretendem apear ali. Já com um pé no degrau para descer, queda-se imóvel e fixa o céu encoberto, as filas de casas e estruturas de betão, o emaranhado de estradas.
É isto, então, a existência pós-Jorge: só numa cidade estranha, dependente da misericórdia de uma tia que viu um total de três vezes na vida, as suas posses terrenas ensardinhadas num malão que dir-se-ia conter tijolos de tanto que tem de puxar por ele para o mover.
Uma lágrima escapa-se-lhe do canto do olho, solitária, cristalina, pH 6,7.
Dois segundos mais tarde, encontra-se em queda livre. A sensação que a arrebata nem é uma de dejá vu, mas de já familiar resignação. Aterra com as mãos no chão, descobre que o cimento do cais de embarque é mais áspero que o previsto quando se levanta e nota as palmas esfoladas e raiadas de sangue. Ah, bom. Nada a fazer. É agarrar na mala e andar, agarrar na mala e andar, e com alguma sorte a tia Cecília já estará estacionada algures à sua espera, salvando-a de ficar a chorar baba e ranho em frente a taxistas, turistas ingleses e a rapariga da banca dos jornais, que assistem ao espectáculo com ar pasmado mas têm o bom senso ou a falta de humanidade de não a abordar.
A tia Cecília não chegou ainda.
Maria Carlota morde o lábio, ruminando enquanto esfrega as mãos – temperaturas acima dos 27 graus durante toda a tarde e noite, o tanas. O seu telemóvel está perdido no fundo do malão, que não se atreve a abrir por o ter empacotado tão compacto que é provável que ao fazê-lo catapulte o seu conteúdo – roupa, artigos de toilette, estojo de primeiros socorros — para cima dos taxistas, que deram em discutir a derrota do Académica em altos berros.
Pronto. Tudo bem.
Quinze minutos a rapar frio mais tarde, emenda-se e decide que não, não está tudo bem, e que se lixe alguém levar com um sutiã desgovernado na tromba, ela precisa do telemóvel já. Tomada a decisão, olha o cadeado – dourado, em formato de coração e cravejado de brilhantes de plástico, prenda do Jorge para marcar três anos de namoro – e faz os dedos mover as rodas num tortuoso 2005: o primeiro ano da sua vida com a dois. Franze a testa, tão intensamente que lhe nasce uma monocelha, quando o clic esperado falha em fazer-se ouvir.
Lindo. Só lhe faltava mais esta, o cadeado meter greve. Rodar os números para a frente e para trás, torções e violentos puxões não resolvem a situação. Em cima de tudo o resto, ainda consegue partir uma unha. Além do mais, os taxistas já lhe começam a fazer olhinhos agora que o seu ar de “Estou à espera que alguém me venha recolher!” se transformou numa expressão que quase grita “Meu Deus, ALGUÉM ME SALVE.”